Crise e globalização


O grande tema mundial, que de modo sistemático é assunto obrigatório de todos os diálogos, é a globalização.

Processo inevitável e que a todos impõe a certeza de mudanças de comportamentos e quebras brutais de paradigmas, pois os muros foram abaixo, conceitos que eram verdadeiros dogmas tiveram que ser submetidos ao referendo popular e o inimaginável aconteceu, permitindo que a diversidade tanto de comportamentos como de opiniões fossem aceitos e respeitados. Não tem nada findo e longe estão os limites que devem ser superados no que se refere a preconceitos e misérias, afinal a realidade da globalização que deveria socializar riquezas e conhecimentos termina por levar também a precariedade a milhares de seres humanos na esfera global. Globalizada ficou também a ganância dos especuladores, que ao simples toque de
uma tecla de computador, levam continentes inteiros a bancarrota.

Com as facilidades tecnológicas de um mundo globalizado em que as pessoas de todas as partes do mundo são informadas instantaneamente sobre todos os fatos ocorridos, está também em destaque, desde 2007, o
grande tema em torno da crise econômica mundial. Os Estados Unidos foram o grande protagonista da crise com o estouro da bolha hipotecária, levando todos os continentes a reverem os seus projetos de investimentos e forçou o aumento do desemprego nos quatro cantos da terra. Após lances dramáticos entre
o presidente Barack Obama e o Congresso Americano tudo parecia se encaminhar para um ordenamento pacífico nas economias mundiais, isto é, os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, mas sem alardes ou holofotes, afinal, se o pobre chora, chora sozinho, mas se o rico chora, todos choram com ele. Surge em
2010 outra crise financeira mundial, tendo como cenário diversos países europeus, em especial a Grécia, Portugal, Itália e Espanha que já não podiam honrar as suas dívidas e precisavam de toda a ajuda possível do mundo. O Brasil não perdeu tempo e aparece no cenário mundial emprestando dinheiro...

Chegamos em 2012 sob os fortes holofotes da imprensa e do otimismo do governo, que massageiam o ego dos brasileiros afirmando que o Brasil não sofrerá os efeitos danosos da crise europeia e que embora a meta inflacionária prevista pelo governo de 4,5% tenha sido superada pelos 6,5% calculado em dezembro/2012, ainda assim, tem-se todo o instrumental necessário para se gerar crescimento e novos empregos para os brasileiros em 2012. O que se pode aprender com a globalização é que ninguém neste início do século XXI estará sozinho, pois a ação negativa de determinado país terminará sendo nefasto para todos. Grande é a
lição, mas parece que poucos querem fazer o dever de casa, pois continuam as barreiras protecionistas, sectarismos religiosos, agressões gritantes aos direitos humanos, governos absolutos e falta de liberdade. Tudo isso coexistindo em pleno século XXI ao lado de milhões de vozes que clamam por justiça. A luta continua. Mais muros vão cair. É crer para ver.




JOÃO SALES NETO
DIRETOR DO SINDICATO DOS
BANCÁRIOS E DA APCEF/PI

Mais renda, menos miséria


O ambicioso plano do governo do Piauí para tirar 220 mil piauienses da situação de extrema miséria não parece tão audacioso quando se confronta com os números. Com mais R$ 20 milhões mensais pode-se ampliar a renda das famílias que estão nesse estrato econômico indecente, que é da vida com uma renda ‘per capita’ inferior a R$ 70 por mês.

A questão só não parece fácil quando se olha sob o ponto de vista não da ajuda oficial necessária e premente, mas da eliminação das causas da miséria absoluta. Se o governo provém as pessoas com uma
rede de proteção social que inclui dar-lhes algum dinheiro para sustento imediato, excelente; mas é preciso construir instrumentos que eliminem esse gasto em médio prazo.

É claro que não se pode criticar o governo por querer ampliar os valores repassados pelos programas de transferência de renda. Afinal, esse dinheiro termina dando algum giro à microeconomia municipal. A questão é que esse tipo de iniciativa nem tem sustentabilidade, sempre será alvo de críticas e, sim, tem fortes possibilidades de virar moeda de troca em tempos eleitorais.

Se é para fazer política ou usar politicamente o que quer que seja em iniciativas de combate à miséria, deve o governo agir para além das redes de proteção social. Iniciativas que levem as pessoas a produzir mais, obter maiores ganhos de seu trabalho e fazer reinversão de parte de sua renda são certamente muito bem-vinda em um país em que é crescente o número de cidadãos que pensa e age para ter mais do que lhes é oferecido pelo governo.

Por enquanto é satisfatório que se mantenham os programas de transferência de renda, mas como bem lembrou o economista César Fortes, coordenador local do Programa Brasil Sem Miséria (“Mais Viver”), se há muita gente dependendo da rede de proteção social no Piauí, é preciso tirá-las de lá.

Faltam ser abertas as portas de saídas de programas sociais nos quais estão seis em dez famílias do Piauí. Retirá-las representa fazer crescer a economia pela iniciativa das pessoas, que, assim, passam a depender menos do Estado, a produzir mais para si próprias e a fazer mover-se a máquina de um ciclo virtuoso de expansão econômica e desenvolvimento.

Recordar


Piauiense de quatro costados por ter nascido aqui e brasileiro nato por ter percorrido e conhecido o Brasil – de ponta a ponta, Anísio Alves Pereira (Esperantina, Piauí, 1940, autor do livro “Singela História em Poesias”, agregando a sua própria biografia (sic), ressaltou as palavras proféticas do formidável poeta Álvares de Azevedo ( Manuel Antônio Álvares de Azevedo: São Paulo, 1831-1852): “Foi poeta – sonhou – e amou na vida”. Por isso, é comovente a simplicidade dos versos que Anísio Alves colocou no soneto “Humilhação”, concernentes à resistência contra a presença de pessoas invejosas“. “Se não somos, não valemos/ Quase nada para ninguém./ Valemos pelo que temos/ Nada vale quem nada tem./ “Em razão disso, sofremos/ Intromissão que não convém/ O que todos nós pretendemos/ É compreender alusões de bem./ “É bom ter humildade,/ Ruim é sofrer discriminação/ Todos precisam ter liberdade./ “Ação inepta nos magoa,/ Pois é receber humilhação/ E ficar cabisbaixo à-toa”.

O biógrafo e historiador Wilson Carvalho Gonçalves (Barras, Piauí, 1923), destacou Firmino Pires Ferreira, Marechal do Exército e político (Barras, Piauí, 1848-Rio de Janeiro, 1930), com a seguinte explicação: “Figura marcante na política e na sociedade brasileira. Foi um grande soldado, que serviu à Pátria na paz e na guerra, revelando sempre entranhado patriotismo e civismo, mais particularmente na defesa dos interesses do Piauí. É patrono da Cadeira 14, da Academia Piauiense de Letras do Vale do Longá (data de fundação: 23 de setembro de 1978). Ainda lembrado no Rio de Janeiro.

O conceituado piauiense Cid de Castro Dias, respeitado engenheiro, autor do livro: “Os caminhos do rio Parnaíba”, defendendo os interesses da Universidade Estadual do Piauí, a conhecida Uespi, enfatizou solenemente: “Se a soma de esforços do governo estadual junto ao governo federal se concentrasse para o soerguimento da Universidade Estadual do Piauí, tornando-a um modelo de excelência, já estaríamos percorrendo metade do caminho em prol do
desenvolvimento harmônico do Piauí”.

Na “Paremiologia Nordestina”, o folclorista Fontes Ibiapina (João Nonon de Moura Fontes Ibiapina: Picos, Piauí, 1921-Parnaíba, Piauí, 1986) através de incríveis chistes (gracejos), explicou que, no caso de qualquer imprevisto prejudicial, desagradável, é melhor que se saiba: “O Diabo quando atenta, chega na porta e se senta” e “De onde não se espera é que a desgraça vem”. “Miolo de pote é não ter água para beber”.

Já José Ribeiro e Silva (Cascavel, Ceará, 1934), convicto filho da nossa terra querida, pois defensor da nobre literatura que envaidece a Academia Piauiense de Letras (data de fundação:30 de dezembro de 1917), definiu de maneira sensata a palavra recordar. “É ter na face a marca indelével das carícias/ E dos afagos de
que não mais se desfruta.../ - É olhar o céu, ver as estrelas/ E implorar ao luar os seus clarões de ternura”.

Por fim, Elias Paz e Silva, laureado poeta piauiense, nascido em Teresina. Sobre o sereno nas noites bonançosas da capital, explicou em versos que “Novo renovo/ Sob o manto do sereno/ Que te veste, passeio/ “Refaço cada passo/ Faço da poesia/ Meu recreio”.




CARLOS SAID
JORNALISTA E PROFESSOR

Obesidade infantil


Além de ajudar no combate a perigos como as drogas – que são um fantasma malévolo a nos atormentar e assombrar recorrentemente – as escolas podem ser aliadas dos pais em outra frente de batalha que, para muitos, sequer chega a ser um problema mais relevante ou alvo de uma preocupação mais amiudada: a obesidade infantil.

Há números bastante conflitantes acerca do percentual de crianças brasileiras que estejam acima do peso. Porém, estudos mais recentes apontam para índice de 10% a 15%. Exames biométricos frequentemente feitos em escolas públicas de Teresina indicaram haver até 13% de crianças do ensino fundamental que estão acima do peso adequado para sua idade.

Os números do IBGE sinalizam para a necessidade de medidas mais urgentes contra o sobrepeso e a obesidade das crianças. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos estava acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como tanto a estatística quanto um olhar mais apurado para as crianças revela que o ganho de peso acima do recomendado é um problema, temos que acreditar que a escola deva ser aliada para reduzir a obesidade de crianças e adolescente no presente para termos uma geração de adultos mais magros e mais saudáveis no futuro.

Não se pode, evidentemente, pedir que as crianças renunciem às frituras e às guloseimas industrializadas sem que se dê a elas uma alternativa gostosa e saudável. Por isso é que nas escolas públicas com merenda escolar essa possibilidade é mais fácil: a comida quase sempre tem menos gorduras e açúcares, mais proteínas e vitaminas.

A questão, com efeito, ficaria restrita às escolas particulares ou mesmo às públicas com cantinas que vendem lanches para as crianças. Bem, neste caso, o Estado brasileiro tem orientado para a venda de comidas mais saudáveis: menos frituras, mais frutas.

Ocorre, no entanto, que é preciso educar pelo exemplo, não pela restrição ou pela proscrição do que a criança gosta de comer. Assim, o papel da escola – como dos pais – deve ser o de instruir os pequenos a comer mais hortaliças, frutas e cereais. Mas esse tipo de alimentação que todos sabem saudável só será aceita mediante o exemplo de pais e professores, não em razão de pura e simples proibição.

Livro dos Humanistas


Afirmou João Paulo dos Reis Veloso (Parnaíba, Piauí, 1931): “O livro é uma grata homenagem ao médico Raul Macedo (Raul Antunes de Macedo (São Raimundo Nonato, 1908-1965), formidável humanista”.

O filho Plínio e a neta Marina, outros dois estudiosos da natureza humana, se revelaram prodigiosos na arte de escrever. Reverenciando pai e avô. Evidentemente, autor e coautora do belo e emocionante livro: “Médico, Medicina e Humanismo”. E a dedicada cientista Niède Guidon (Juá, São Paulo, 1933), arqueóloga de projeção internacional, grande responsável pelos trabalhos desenvolvidos na Serra da Capivara, no município de São Raimundo Nonato, Piauí, endossou as palavras de Reis Veloso. Servindo como testemunha na aprovação da nobre tarefa executada pelo médico Raul Macêdo.

Na cronologia do tempo, eis que Plínio da Silva Macedo, nascido em 1957, professor da Universidade Federal do Piauí, dentista e primeiro doutor em Periodontia no Norte e Nordeste do Brasil, ilustre filho de Raul Antunes de Macêdo, o apelidado “médico do sertão”, tomou a responsabilidade de lembrar as ações do seu genitor que, aos 57 anos, foi vitimado pelo próprio coração (sic), após servir sem desfalecimento aos pobres e desvalidos da sorte e, também, aos ansiosos doentes que procuravam curar males do corpo e do espírito. Raul Macêdo se entregara de corpo e alma a favor do juramento de Hipócrates (Ilha de Cós, Grécia, 460 a. C..- Larissa, na Tessália, 357 a. C.), pai da medicina).

Temos que apender, pois os exemplos de Raul Macedo se afiguraram no excelente compêndio recentemente lan- çado ao mercado cultural do Piauí. Ademais, livro escrito por quatro mãos aneladas na intelectualidade familiar do clâ Macedo. Plínio chamou a filha Marina Barguil e ela, feita coautora, navegou tranquilamente no infinito do espaço. À procura de saber o que havia representado o avô no incondicional trabalho de salvar vidas pela região mais desassistida do Piauí. Fixaram a história que ultrapassou todas as barreiras de uma época preconceituosa para os padrões sociais da vida interiorana. Consequentemente, nada melhor do que possuirmos o livro nas prateleiras bibliotecárias.

Na inauguração do primeiro hospital de São Raimundo Nonato, Piauí, “Maria do Carmo Correia Caldas Rodrigues” (Parnaíba, 1924-2006), Raul Macedo começou a sua intensa atividade como médico dos pobres. Sem dar importância aos achaques do coração. Mas a morte lhe reservou, em 1965, aos 57 anos, o desaparecimento prematuro. O infarto do miocárdio (a camada média e mais espessa da parede do coração, formada por músculo cardíaco), surpreendeu a população da vasta região que compreende, além de São Raimundo Nonato, Canto do Buriti, João Costa, Fartura do Piauí, Dirceu Arcoverde, Coronel José Dias, São Lourenço, Várzea Grande, Bonfim do Piauí e São Braz do Piauí.

Acreditamos, pois, nos humanistas piauienses, seguidores dos exemplos de Raul Antunes de Macêdo: “Salvar vidas e curar as doenças da nossa gente pobre é questão moral advinda do consentimento de todos”. Assim, no dizer dos poetas conterrâneos que cultivam a beleza literária amadurecida em generosa terra, “tudo que sabemos sobre a moral e as obrigações do homem, devemos a Deus”.



CARLOS SAID
JORNALISTA E PROFESSOR

A luta pela criação do TRT-P


A história da implantação do Tribunal Regional do Trabalho da 22ª região começou a ser escrita com a vinda
para o Piauí, em 1985, do então juiz Francisco Meton Marques de Lima, que atuava no TRT do Ceará. Na época as juntas de conciliação do Piauí ainda eram vinculadas à 7º região.

Então com 32 anos de idade, ele fora escalado para vir a Teresina substituir um colega que entrara de férias, fato que repetiria nos dois anos seguintes.

Estas constantes visitas de Meton Marques a Teresina criaram nele um laço afetivo com a cidade e seu povo, onde o ilustre magistrado fez inúmeras amizades com vários advogados e cidadãos de bem de nossa terra.

Foi criado assim o Tribunal Reginal do Trabalho do Piauí, com muitas dificuldades.

A composição do Tribunal foi a seguinte: desembargadores Arnaldo Boson Paes, Manoel Edilson Cardoso, Wellington Jim Boavista, Laércio Domiciano, Fausto Lustosa Neto, Enedina Maria Gomes dos Santos, Dra. Liana Chaib.

Segundo o ilustre professor de Direito Jorge Azar Chaib “A possível instalação do TRT mais eficaz era, até a segunda metade da década de 80, apenas um desejo dos juízes e advogados. Um desejo que se alimentava no direito do cidadão por justiça ainda que tardia”.

A necessidade da justiça mais próxima do cidadão, na esperança de melhores dias. A campanha ganhou as ruas, atraiu a imprensa, os segmentos a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), os deputados, os juízes, os magistrados de todas as ordens.

Com a Constituição de 1988 ficou estabelecido que em cada unidade da federação haveria pelo menos um Tribunal Regional do Trabalho. A Emenda Constitucional nº 45 de 2004 promoveu a ampliação da competência da Justiça do Trabalho. Assim chegamos à conclusão da importância do aludido tribunal
para a população.



JORGE CHAIB FILHO
ADVOGADO

Ensino profissionalizante


Os números da educação em 2011 no Piauí podem causar espanto a quem os lê sem cotejá-los. Há uma redução na oferta de vagas nas modalidades do ensino básico. Houve um recuo bastante significativo no número de matrículas de Ensino Médio. O Ensino Fundamental oferecido por escolas estaduais também está em declínio.

Em uma análise de primeira vista, se poderia dizer, com efeito, que números a menor representam algo negativo.

Pode ser que sim, que estejamos diante de um problema de menos jovens interessados pelo Ensino Médio, mas há também a possibilidade de que muitos optam pelo ensino técnico – modalidade que mais cresce no Estado, em uma razão superior a duas vezes as matrículas das demais categorias de educação.

Como está havendo uma redução do número de matrículas em escolas de Ensino Médio, uma expansão praticamente vegetativa nas matrículas em cursos superiores e uma explosão de demanda por ensino técnico, parece bastante claro que o Estado vive uma situação nova: há milhares de estudantes que concluíram o Ensino Médio, não querem ou não podem ir para uma faculdade e necessitam de ensino profissionalizante em nível técnico ou tecnológico.

Se existe uma demanda por formação escolar mais voltada ao mercado de trabalho – algo que as escolas de ensino formal médio não oferecem – então é adequado se dizer que, mesmo tendo havido ampliação de escolas técnicas, o Estado necessita avançar mais. Esse avanço, porém, não pode ser meramente físico: é essencial que as autoridades educacionais compreendam o que querem os jovens. E isso se faz simplesmente perguntando a eles que tipo de instrução profissionalizante eles precisam receber mais urgentemente.

Sabe-se que existem possibilidades de emprego dentro e fora do Estado e que considerável parcela de jovens pode, sim, optar por deixar o Piauí se estiverem melhor preparados para competir. Assim é que não deve nem pode causar espécie de ofertar ensino não apenas para atender aos interesses locais, mas para acolher as aspirações dos jovens que concluem o Ensino Médio, não seguem estudando e querem mesmo é um emprego – algo que somente cursos técnicos podem lhe dar mais rapidamente.