Barragens e irrigação


O Piauí tem pelo menos dez grandes barragens que nunca se prestaram a produzir mais que peixes em escala comercial módica e lazer para veranistas que residem no seu entorno. Em lagos como o da barragem de Piracuruca, no município e rio com nome similar, além de nada se produzir, ilhas e margens foram ocupadas
irregularmente. A água acumulada nas barragens piauienses é suficiente para tornar produtivos mais de 100 mil hectares em áreas nos vales dos rios que poderiam estar perenizados se houvesse melhor gerenciamento desses recursos hídricos cuja reservação custou pelo menos meio bilhão de reais.

Mas o Piauí segue sem usar as águas acumuladas para irrigação. O uso econômico e social mediante a piscicultura, contudo, tem demonstrado que as barragens podem ser um gigantesco ativo a ser melhor explorado. No entanto, há que se estabelecer regras e isso o Estado está longe de conseguir.

Um dos mecanismos inaugurais do uso econômico da água é o estabelecimento dos comitês de bacia, processo em que o Piauí está para além de atrasado. O único comitê existente – da bacia do rio Piauí – é muito menos que um enfeite autárquico que até hoje não disse a que veio. Como não existem normas para o uso econômico dos recursos hídricos, temos um duplo prejuízo: nem irrigamos áreas que poderiam estar produzindo mais e perdemos água para quem faz o uso que quiser, quando e onde puder.

O Estado deve aos cidadãos um programa de uso econômico da água. É urgente que se trabalhe com o fito de fazer as barragens do Estado produzirem mais riqueza e isso somente se dará quando houver interesse
do setor privado, com licitação de águas para agricultura ou cultivo de pastagens irrigadas.

Quanto antes se estabelecerem políticas e normas de uso da água, menos riscos os ativos hídricos do Estado correrão. Também será maior a chance de termos um progresso econômico pelo uso racional e econômico da água, para produção de alimentos e geração de riqueza em vastas áreas do Piauí.

Jornalista, profissão de risco


Jornalistas censurados; jornalistas condenados na Justiça; jornalistas presos no exercício da profissão; jornalistas mortos por milícias. Quando o jornalismo vira manchete, algo ruim e perigoso está no ar. Nessa situação de risco encontram-se muitos profissionais de imprensa em diversos países, inclusive na América Latina.

Três casos chamam a atenção pelo retrocesso: Venezuela, Argentina e Equador. Em todos, o argumento do poder para desferir golpes na mídia e em seus profissionais é o mesmo: a imprensa estaria sendo usada pela oposição para atacar o governo e manipular a população. Neles, tenta-se, com maior ou menor sucesso, estatizar os meios de comunicação, concentrando no Executivo a prerrogativa de produzir e disseminar notícias.

Na Venezuela, o governo de Chávez empreendeu uma progressiva revogação das concessões de comunicação do setor privado, deixando à míngua a imprensa livre do país. Uma lei venezuelana que impede falar mal do presidente em público mostra bem a que ponto chegou a censura imposta por Caracas.

Na Argentina, a família Kirchner, desde o período de Nestor à atual presidência de Cristina, o vilão escolhido foi o jornal El Clarin, e a batalha da Casa Rosada para fechá-lo alcançou a vida privada de sua proprietária, acusada de ter adotado filhos de desaparecidos políticos no país. A estatização da propriedade do papel-jornal ameaça a independência da mídia privada argentina.

Ao contrário da Venezuela e da Argentina, onde a mão pesada do Executivo se faz sentir, com medidas administrativas ou legislativas, no Equador, recentes vitórias do governo na justiça – dentro da moldura democrática – impuseram vultosas indenizações contra jornalistas e meios de comunicação que incomodam o governo de Rafael Correa, cujas intenções de estatizar a mídia estão em curso em projeto de lei no Congresso.

Embora distintos em grau e métodos de cerceamento, os três casos indicam a tendência governamental de limitar o trabalho da imprensa na região, situação que vem sendo denunciada pela Sociedade Interamericana de Imprensa, pela OEA e pelas ONGs de direitos humanos. Sob risco, o jornalista latinoamericano enfrenta dias difíceis.




GILBERTO RODRIGUES
PROFESSOR DO CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Vamos concluir o porto do Piauí


Quais são as justificativas para o Piauí ser o único Estado do Nordeste que não dispõe de um porto para receber seus produtos importados e exportar sua produção e desta maneira, minimizar custos, aumentar a renda dos seus empreendedores e o nível de emprego da população piauiense? No Maranhão, Ceará, Pernambuco e na Bahia existem mais de um e no nosso querido Piauí sempre na espera da conclusão do
tão falado “porto de Luís Correia”.

Lembro-me bem que, ao chegar ao Piauí, recém-formado, no início da década de 70 do século passado, já se falava na conclusão deste bendito porto, pois presenciei inúmeras caçambas depositando pedras para construção do ”quebra-mar” onde ia ser construído a referida obra. E hoje, decorridos mais de 40 anos, a conversa é a mesma.

Falava-se naquela época que o Estado não tinha muito a exportar, a não ser a cera de carnaúba, e as importações eram de pouco volume, sendo que o principal produto importado, combustíveis de petróleo, o que seria resolvido com a criação do Terminal de Combustíveis em Teresina, sendo que este insumo seria trazido de trens oriundos dos portos de São Luís e Fortaleza, como é feito ainda hoje.

Ao longo destes anos, a produção do Piauí cresceu bastante, nosso Estado já é o terceiro maior produtor de grãos do Nordeste, perdendo apenas para os Estados da Bahia e Maranhão. Produz mais de 1 milhão de toneladas de grãos de soja, continua sendo um dos principais exportadores de cera de carnaúba, será em pouco tempo o maior exportador de ferro do Nordeste.

Sem falar que o consumo de derivados de petróleo cresceu bastante com abertura das áreas dos cerrados, além do aumento substancial da frota de veículos, tanto na capital, Teresina, como nas cidades do interior.

Vale destacar que no Piauí em 2010 foram consumidas 234.000 toneladas de fertilizantes para agricultura, importados pelos portos de São Luís, Recife, Maceió, Aracajú e Salvador.

Portanto, é necessário que nossos representantes políticos (governador, senadores e deputados federais) se unam e vão até a presidente Dilma e exijam recursos necessários para a conclusão do tão sonhado porto de ”Luís Correia”, com a devida dragagem necessária, já que a engenharia brasileira dispõe de tecnologia suficiente para tal fim, tendo em vista que esta conclusão é prioridade para o desenvolvimento do Piauí.



JOSÉ NERIVALDO DE ARAÚJO
ENGENHEIRO AGRÔNOMO

Flor sem nome


O versátil repentista José Fernandes de Carvalho (Prata, Altos, Piauí, 1871-Canto Alegre, Altos, atualmente
Coivaras, Piauí, 1944), recitando a oitava (estrofe de oito versos) improvisada, obteve 10 num desafio contra famoso cantador d´outro Estado nordestino. Chico Preto só mela o bico/ No tempo que dá melão./ O rico só lembra o pobre/ No tempo da eleição./ Por isso, quem quiser subir,/ Que suba num foguetão/ E vá roubar no inferno,/ Que é lugar de ladrão”. No fim de tudo, não obteve resposta do desafiante. Conhecido como
“Zé da Prata “, o incrível José Fernandes de Carvalho, enquanto vivo, não encontrou adversários à altura do seu improviso. Além de corajoso, irreverente foi. Por isso, o encantamento no apelido que ganhou antes de morrer. Epíteto que lhe valeu o livro biográfico sob título:

“Prata de Lei”.

O escritor, poeta e professor Anísio Alves (Anísio Alves Pereira: Esperantina, Piauí, 1940), em versos que dignificam a humildade, ressalta a alegria de conquistar a confiança das pessoas. “Presunção não convém/ Não eleva ninguém/ Não é uma virtude/ Nem é quietude./ É um defeito/ Que maltrata o sujeito/ Não é utopia/ Existe em demasia./ “Senso oposto/ Demonstra mais gosto/ Ao homem pertence/ Algo que convence/ Uma boa qualidade/ É a humildade”.

O médico, professor e poeta Durvalino Couto (Teresina, Piauí, 1909-1979), escreveu “Três Cousas”, livro contendo inéditos poemas. O soneto “Teu Sorriso”, exemplo literário, ganhou elogios da crítica piauiense. “O teu sorriso é um cântico de fadas/ Que do céu, langoroso, à terra desce,/ Murmúrio brando e terno de uma prece/ Das virgens de almas puras e enluaradas./ “Teus lábios cor de rosa orvalhadas/ Descerram-se, e ele
límpido aparece.../ Prende-me todo... e na minh´alma tece/ Suas profundas tramas encantadas.../ “Teu riso às vezes, quando se prolonga,/ Nasce em tua boca a chama de uma aurora/ Cheia de paz, teu sonho que se alonga.../ “E tudo sendo em ti luz e harmonia,/ Um desalento na minh´alma chora/ E geme o harmonium da melancolia”.

Nascido e falecido em Barras, Piauí, 1903-1984, Pedro Alves Furtado, poeta e operário, ganhou notoriedade ao escrever o soneto “Manhã”. “Ontem, quando à manhã o sol nascia,/ A natureza estava alegre e pura/ Dava a terra a mais doce formosura,/ Os pássaros cantavam de alegria. / “A brisa perpassando tão macia/ Enchia toda a terra de frescura,/ Estava o mundo cheio de doçura,/ Tudo enfim docemente me sorria./ “Deixando a sós meu pobre e triste leito/ Senti vontade imensa de cantar,/ E fiz este soneto satisfeito./ “Depois, no céu a luz eu vi brilhar,/ Foi quando então senti dentro do peito,/ Da manhã o mais belo despertar”.

O poeta, jornalista e professor Mário Rodrigues Martins (Picos, Piauí, 1903- 1968), no belo soneto “Flor sem nome”, se empolgou com as poesias colocadas no seu livro de 1945, lançado no Rio de Janeiro: “A Evolução da Literatura Brasileira”. “Moça e bela! Bendigo a tua mocidade/ Cujo calor há de aquecer algum ninho,/ Pão e abrigo ainda ser, muito amor e carinho,/ Ser um raio de sol. Resistir-lhe quem há-de?/ “Quantas terras andei sem ter uma saudade!/ Trazia o inverno n´alma e vinha tão sozinho.../ Agora uma ilusão floriu no meu caminho,/ Sinto a razão de ser que a todos persuade./ “Ninguém te quer assim, ó minha doce amiga,/ Como eu te quero e adoro! Escuta-me! Perdoa.../ Pudesse eu te dizer... meu coração que o diga:/ “Eu nunca fui feliz, e és tão feliz... suponho.../ Serás, se fores minha, em sendo meiga e boa,/ A graça deste amor e a glória deste sonho!”




CARLOS SAID
JORNALISTA E PROFESSOR

Crime e doença


A Comissão de Assuntos Sociais do Senado deve votar na semana que vem projeto de lei de autoria de Demóstenes Torres (DEM-GO) prevendo a criminalização de usuários de drogas, bem assim a internação compulsória. Não há consenso a respeito dos dois temas, mas existe uma luz a indicar que as drogas são hoje também um problema de saúde pública.

O senador piauiense Wellington Dias (PT) lembra que antes de criminalizar o uso de substâncias intorpecentes é necessário ver esse problema como de saúde e não somente de segurança. Afinal, como frisa o congressista, tratado da Organização Mundial de Saúde (OMS), assinado pelo Brasil, preconiza que o usuário de drogas deve ser tratado como doente e não como criminoso.

Tem razão o senador do Piauí, porém é necessário que não tenhamos nem ilusões nem lirismos. Quando o senador Torres propugna a criminalização do usuário, o faz porque sabemos todos que existe uma fronteira tênue demais entre o doente e o criminoso. Muitas vezes, para manter o vício, o dependente se vale de meios ilegais e até violentos para obter recursos. Ademais, é razoável que, sendo essas pessoas tratadas como doentes, não se tenha tantos pruridos para a internação compulsória.

Governo, sociedade e famílias têm perdido seguidas batalhas contra as drogas. Elas avançam com enorme poder de sedução sobre os jovens, crianças e outros estratos etários, sem que tenhamos as condições de debelá-las com necessário rigor e eficácia. Para piorar, existem impedimentos legais a ações que podem salvar vidas, como a internação à revelia do usuário ou mesmo maior rigor da lei para porte e uso de substâncias entorpecentes.

A discussão no Senado é ainda algo incipiente e que certamente se prolongará por bom tempo. É, por isso
mesmo, algo positivo. Espera-se que o debate sirva para apontar caminhos legais ou institucionais com o fito de obtermos soluções mais eficientes no combate às drogas.

No atual estágio, louve-se a postura pluralista da senadora gaúcha Ana Amélia (PP), que ouviu diversas instituições médicas e acolheu o parecer da Subcomissão sobre Álcool, Crack e Outras Drogas, que concluiu ser o uso de drogas um problema de saúde e não de segurança. Na esteira dessa percepção, é alvissareiro que o relatório da senadora preveja medidas para combater o tráfico, o atendimento e o cuidado com as pessoas dependentes, bem como os critérios de internação.

O impostômetro sem alma


O impostômetro, como o próprio nome sugere, serve para mostrar a sociedade quanto ela está pagando de impostos.

É importante ressaltar que, desde a sua criação, em abril de 2005, o impostômetro só apontou aumentos na arrecadação. Imaginase que uma reforma poderia fazer a carga tributária recuar. Ledo engano, pois os privilégios, a corrupção e os gastos exagerados não permitem que esse objetivo se torne realidade. A fim de que tenhamos apenas uma pequena ideia do desregramento dos dispêndios governamentais, transcrevo algumas informações que a Veja publicou recentemente. O tema é o empreguismo político. Só o governo federal, diz a revista, pode nomear 23.579 cargos de confiança. Os salários são astronômicos. Na Inglaterra, compara, são apenas 300 cargos. Pergunto: sem fechar esse ralo de desperdício nas três esferas de governo, dá para sonhar com o recuo da carga tributária? Com essa farra, jamais.

Aliás, o impostômetro nasceu também com a finalidade de revoltar democraticamente o cidadão-contribuinte. Mas, nesse ponto, ele não está surtindo o efeito desejado. De fato, mesmo tomando conhecimento de que o
setor público extrai, por meio da tributação, parte substancial da poupança do setor privado para esbagaçá-la no jogo do podre poder, a nossa sociedade não consegue se indignar como deveria. Chego até a entender os bons propósitos republicamos do seu criador, mas não tenho dúvidas que ele se esqueceu de dar uma alma a sua criatura. Dar uma alma a um ser inanimado? Complicado! Como faremos isso com o impostômetro? A resposta é simples, basta dotá-lo de informações pontuais, a fim de que qualquer pessoa possa comparar, questionar e, a grosso modo, julgar as administrações dos governos que elegem.

Por exemplo, sem sabermos com segurança os valores específicos de cada gasto orçamentário, R$ 1 trilhão de receita tributária arrecadada é muito ou pouco? Duvido que haja unanimidade nas respostas, pois, para uma família pode ser muito, mas, para um Estado, talvez seja pouco. Nesse sentido, precisamos aperfeiçoar o impostômetro, a fim de fazer com que o povo pense mais e melhor sobre a situação fiscal do seu país. Que tal informar ao lado da arrecadação de tributos, os investimentos em saúde e educação? A meu ver seria muito esclarecedor, pois, ao olhar para os números, o cidadão deduziria do valor arrecadado os valores desses dois importantes gastos. Como o resultado da subtração seria muito alto, ele se perguntaria: para onde foi ou está sendo aplicada essa sobra?

Mas a curiosidade não pararia por aí. Quando tomasse conhecimento de uma denúncia sobre desvios dos seus impostos, ele mais uma vez se perguntaria: onde estão as instituições que eu pago para fiscalizar e punir? E, logo, iria exigir que fossem também colocados no impostômetro os valores que ele paga para manter essas entidades republicanas. Em pouco tempo, o cidadão iria querer saber sobre o PIB (Produto Interno Bruto), sobre a dívida pública, enfim, iria querer saber como funciona o orçamento do país que ele administra indiretamente por meio de seus mandatários políticos. Comparar, a fim de que se possa analisar, questionar e, se for o caso, indignar-se como forma de responsabilizar os culpados; eis a alma que poderíamos dar ao impostômetro.



SÉRGIO COSTA
CONTADOR

Chance perdida


Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), uma poderosa máquina de fazer dinheiro, com faturamento anual estimado em R$ 200 milhões, conseguiu se manter no cargo de presidente da entidade. Em assembleia dos presidentes das federações estaduais de futebol foi decidido, por unanimidade, a continuidade do longo reinado de Teixeira.

Nunca como agora houve chance melhor para se avançar no futebol brasileiro: Ricardo Teixeira perdeu apoio entre seus pares e no governo da presidente Dilma Roussef ele é malquisto, mas as denúncias de irregularidades, apesar de o enfraquecerem, mesmo assim não abriram a possibilidade de se mudar o comando da CBF para dar à entidade um pouco de transparência – material que nunca foi muito comum no futebol brasileiro.

O problema é que Teixeira está presidente de uma entidade cujo poder se baseia em troca de favores. Os que elegem o mandatário do futebol brasileiro são presidentes de federações estaduais que têm na folha corrida muitas acusações e quase nenhum serviço prestado ao esporte. Aliás, em muitos Estados, os chamados ‘cartolas’ deveriam ser chamados de coveiros, porque enterraram o futebol, reduzindo as competições estaduais a uma triste exibição de peladas.

Uma vez que não existe transparência e que a gestão é, por isso mesmo, ruinosa, o futebol brasileiro cresce feito rabo de vaca, para baixo. Um bom exemplo disso é que a seleção de futebol, que era um exemplo para o mundo, amarga uma sétima posição no ranking da Fifa. Em apenas 11 dos 27 Estados brasileiros o futebol é um esporte digno de nota. Não é sem razão que nem com todo talento o esporte consegue encher estádios – mesmo onde existem competições mais organizadas e acirradas.

Mudar o futebol brasileiro significa retirar de campo figuras perniciosas que só concorrem para piorar o estado de coisas em que essa paixão nacional foi colocada. Não é tarefa fácil e nem foi possível realizá-la agora, a toque de caixa. Contudo, já passa da hora de dar cartão vermelho para dirigentes que empobrecem o futebol, mas que, segundo um crescente número de denúncias, ganham muito com isso.